Ao testar sites para quem quer pular a cerca, a Folha encontra serviços de prostituição, homens que se passam por mulheres e uma falha grave de segurança
Em expansão no país desde que estrearam, há dois meses, os sites de traição não têm só pessoas comprometidas à procura de amantes.
Ao testá-los, a Folha encontrou garotas de programa, homens se passando por mulheres para não pagar e, no mais popular deles, uma falha grave de segurança.
Mudando um único dígito no endereço de álbuns públicos do Ohhtel (ohhtel.com), era possível ver fotos privadas de qualquer usuário. O problema ocorreu desde o lançamento desse site no Brasil, em julho, e só foi corrigido no último fim de semana, após contato da Folha.
Fundados nos EUA, os dois principais sites do ramo já atraem milhares de pessoas no Brasil. O Ashley Madison (ashleymadison.com) afirma ter 10,5 milhões de usuários no mundo todo, 130 mil deles no país. O Ohhtel tem menos usuários no total -2 milhões-, mas supera o concorrente no Brasil: 282 mil.
Os serviços são totalmente gratuitos para mulheres. Homens podem se cadastrar de graça, mas, para contatá-las, precisam comprar pacotes de créditos que custam entre R$ 60 e R$ 80, no mínimo.
Alguns usuários do sexo masculino, porém, se cadastram como mulheres para usufruir da gratuidade.
Uma busca rápida por mulheres no Ohhtel, por exemplo, retorna perfis com avisos como "sou homem... procuro mulheres para sexo".
"Olá, se você está procurando diversão e quer passar um bom momento com alguém que você pode encontrar regularmente, eu gostaria de ouvir o que você tem a dizer", dizia uma mensagem enviada à Folha por um perfil de prostituição. As regras de ambos os serviços proíbem qualquer tipo de comércio.
Ambos os sites afirmam contar com recursos para evitar esses tipos de situação.
"Criamos o Ohhtel para as mulheres", afirma o diretor do Ohhtel, Jackson Roberts.
O discurso é o mesmo de Eduardo Borges, representante do Ashley Madison no Brasil. "O homem consegue trair com mais facilidade na sociedade. A mulher, não."
Segundo Borges, o Ashley Madison costuma ter picos de novos cadastros nos dias seguintes aos de datas comemorativas. "As pessoas passam a data com seu par e descobrem que não estão satisfeitas com o casamento. No dia seguinte, entram no site."
Em média, o Ashley Madison ganha 3.300 usuários por dia no Brasil. No Dia do Amante, na última quinta-feira (22), o número dobrou: 6.867, segundo maior pico do site, depois do Dia dos Pais, quando entraram 22 mil membros novos.
OUTRO LADO
Falha foi 'bug temporário', afirma Ohhtel
Site de traição informa ter resolvido problema de segurança em 72 horas; serviços dizem combater perfis falsos
Durante a apuração desta reportagem, a Folha descobriu um problema grave de segurança no Ohhtel que permitia ver as fotos privadas de praticamente qualquer usuário do site. Bastava trocar um número no endereço virtual do álbum.
O analista de sistemas que encontrou a falha entrou em contato com o Ohhtel em 18 de agosto para alertar a empresa sobre o problema.
Enviou duas mensagens, uma em inglês e outra em português, mas nenhuma delas foi respondida.
Na última sexta, a Folha relatou a falha à assessoria de imprensa do Ohhtel. "Este foi um 'bug' [problema técnico] temporário no nosso sistema, que nós identificamos e corrigimos dentro de 72 horas", respondeu Jackson Roberts, diretor do site.
Sobre a presença de garotas de programa e de perfis falsos, o Ohhtel e o Ashley Madison afirmam contar com monitoramento de atividades suspeitas e com denúncias dos próprios usuários.
"A prostituta vai se comportar de maneira diferente do que uma usuária comum", afirma Roberts. "Por exemplo, vai enviar a mesma mensagem para muitos homens ao mesmo tempo."
Segundo o diretor do Ohhtel, se forem constatadas atividades proibidas pelo site, o perfil é removido e seu endereço IP é bloqueado.
IDIOMA PRECÁRIO
Um usuário do site ouvido pela Folha gastou créditos para abrir a mensagem de um perfil de prostituição.
Depois de mandar um e-mail para o suporte, foi ressarcido e recebeu uma resposta cheia de erros de português: "Essas mensagems foram do servico de prostituacao querendo fazer negocios. Nos apagamos os perfiles falsos do nosso site e as mensagems que estavam dentro do seu email", dizia um trecho da mensagem.
No Ashley Madison, as fotos enviadas precisam ser aprovadas antes da publicação. "Isso inibe fotos falsas, de gente famosa, por exemplo", diz Eduardo Borges, representante do site no Brasil.
A Folha encontrou ainda homens que se fazem passar por mulheres para não pagar pelo uso dos sites.
"Um homem pode se inscrever no Ohhtel como uma mulher e usar o serviço gratuitamente, mas ele não será capaz de falar com as mulheres", afirma Roberts. "O site só permite a perfis masculinos falar com perfis femininos, e os perfis de mulheres só podem falar com homens."
O sistema de verificação de fotos do Ashley Madison também serve para impedir que homens se façam passar por mulheres, afirma Borges.
DEPOIMENTO/ELA
É no bate-papo que a coisa pega fogo
Foi às 10h de uma segunda-feira que decidi apimentar minha vida amorosa. Entrei no Ashley Madison, escolhi o nome Danizinha e comecei a descrever meus supostos interesses: "mulher comprometida procurando homens", em busca de "qualquer coisa que dê tesão".
Escolhi homens que estavam a um raio de 50 km e tive acesso a uma profusão de torsos nus e frases diretas, para não dizer cafajestes. Marcos*, por exemplo, usa como definição "topo conhecer e te dar prazer". Loirão24 vai direto ao ponto: "tô à procura de sexo sem compromisso", enquanto Tatazinho exagera dizendo "proporciono grandes emoções".
Foi MMM5400, de sunga na foto, que chamou minha atenção. Diz que está de "bem com a vida e buscando aventura". Para começar a interagir, recorro às opções: enviar mensagem, presente ou uma piscadinha. Enviei de presente uma cereja.
Para Tequero69, "só faço com você", mandei mensagem perguntando se ele queria conversar.
Em 24 horas, recebi duas mensagens, um presente, três piscadinhas, uma chave de acesso para fotos privativas e fui adicionada a uma lista de favoritos. O negócio funciona.
CARÊNCIA
Mas é no bate-papo que pega fogo. Basta ver quem está disponível para começar a falar.
Foi assim que Nos80 me encontrou. Ele acabara de voltar da viagem de férias. Enquanto a esposa (com quem está há 11 anos e tem duas filhas) descansa, ele vê e-mail e entra no Ashley."Ela é bacana, mas nossa relação esfriou."
Ele some por uns dez minutos. Quando volta, diz que a esposa estava do lado e pergunta se podemos conversar por e-mail ou MSN. Claro! Danizinha está sempre disponível.
Na outra janela, converso com Gatodacidade40 e pergunto o que o levou ao site. "Carinho anda em falta por aqui, sexo então... Meses sem!", ele responde. A conversa é interrompida. Ele volta e diz que teve que comprar créditos.
E, se no bar o que não faltam são homens comprometidos que não resistem a uma paquerinha, imagine na internet? É tudo muito rápido. Você pode marcar um encontro depois de 20 minutos de conversa. Se depender da disposição deles, o clímax vem rapidinho! (DANIELA ARRAIS)
* Os apelidos foram modificados
DEPOIMENTO/ELE
Dinheiro em sites de traição é vendaval
Inseguro de minhas habilidades de sedução on-line, me cadastrei no Ohhtel e penei para bolar uma frase de apresentação.
Comecei com "opa", passei para "olá" e acabei optando pela sedutora "estou à disposição".
Depois de algumas horas, recebi duas mensagens, aparentemente de garotas de programa.
Abordei uma mulher cuja foto do perfil mostrava um pedaço de uma tatuagem numa parte não identificada do corpo.
"Quero ver o resto da tatuagem", pedi. A resposta: "Não. Beijosssss".
Com abordagens mais delicadas, a conversa fluiu com outras duas mulheres e migrou para o MSN. Uma delas, por coincidência, encontrava-se no mesmo bairro em que moro.
Ela estava na casa de uma amiga que acabara de passar por uma cirurgia (nada grave). Tem 29 anos e namora há oito. Perguntei como andava o namoro. "Bem, deve imaginar, rs."
Paguei R$ 60 por mil créditos, que acabam muito rápido -para trocar mensagens com alguém, gastam-se 50 créditos.
O título da mensagem mais recente que recebi é "quero erótismo (sic)". Mas não posso lê-la. Depois de 20 contatos, meus créditos acabaram. (RC)
Serviço funciona como 'facilitador', conta usuária
Maria*, 28, administradora, começou a usar sites de traição por curiosidade.
Ela namora há três anos, mas não gosta "dessa hipocrisia de as pessoas acharem que todo mundo é fiel". "Acho que hoje tudo é mais simples: quando você descobre que seu namorado fez alguma coisa, você faz também, por vingancinha."
O relacionamento que ela tem com o namorado não é aberto. "Nem perto disso. Se ele souber, nunca mais olha na minha cara", diz. Mas isso não a impede de sair com outros homens por meio dos sites e "por fora também".
"Os sites funcionam como facilitador. É mais complicado quando você encontra alguém no bar, aí corre e risco de expor a outra pessoa. Nos sites, não. Quem está lá tem o mesmo motivo que você."
Maria diz não ter medo de sair com os homens que conhece pelos sites. Isso acontece porque ela costuma passar bastante tempo conversando, trocando fotos, antes de decidir por um encontro.
"Na primeira vez, marquei um almoço em horário comercial, em um lugar conhecido. Não tive problemas."
"Não acredito na fidelidade, e hoje em dia todo mundo é igual. Se homens podem, mulheres podem também", afirma. "Já descobri traição do meu namorado. Ele nunca descobriu uma minha. Mulheres fazem muito melhor."
NAMORADA NÃO TOPA
Roberto*, 22, estudante de ciência da computação, namora há um ano e meio e usa sites de traição desde agosto.
"Minha namorada tem preconceito. Respeito, mas quero conhecer outras pessoas."
Segundo Roberto, sua namorada estranharia um encontro a três. "Sempre vi isso com olhos muito naturais, mas sei que a sociedade não enxerga dessa forma."
Morador de São Paulo, ele já conheceu mulheres de Porto Alegre, Maringá e Natal, mas só cogita marcar um encontro real com outras duas, de São Bernardo e Guaratinguetá, cidades mais próximas.
"Por ter um relacionamento, são muitas as desculpas que tenho que dar para viajar de avião e sumir por um fim de semana. Se for numa cidade próxima, posso falar que estou indo trabalhar." (RC E DA)
* Nomes fictícios
Meninas têm menos disposição para competir, embora sejam tão boas em matemática e tenham as mesmas chances de vencer uma corrida 
